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Dust Bowl Ballads – Woody Guthrie

O cantor folk Woody Guthrie apresenta sua interpretação das tempestades de areia na década de 30 que devastaram a agricultura de dezenas de estados norte-americanos e forçaram milhares de habitantes a procurar outro lugar para viver.

 

Traçar o pioneirismo de certas ações, sem dúvida é uma tarefa complicada. Especialmente na música, onde tantas influências se misturam, e se há pouca certeza sobre quem realmente foi o primeiro a explorar certas sonoridades ou ideias.

No caso do álbum conceitual, um fenômeno do fim dos anos 60 e início dos 70, no qual as bandas buscavam tornar o rock mais crítico e “culto”, e explorar as possibilidades que o longo formato possibilitava, mais de quatro décadas se passaram e o debate sobre a autoria da primeira ópera rock entre Nirvana, The Pretty Things e The Who ainda não obteve um vencedor, quanto menos a discussão pela criação do primeiro trabalho conceitual.

Entretanto, muito antes de Beatles, Kinks, Who, Pretty Things e Pink Floyd se aventurarem pelo caminho dos álbuns conceituais e causarem um grande impacto na cultura popular, um cantor folk, com apenas um violão e o auxílio de uma gaita foi capaz de produzir uma obra temática que transformou totalmente o jogo.

Este é Woody Guthrie, um norte-americano do Oklahoma e o compositor de “Dust Bowl Ballads”, seu primeiro álbum, o mais significativo da carreira e por muitos, considerado o primeiro registro conceitual da história.

Gravado na primavera de 1940, “Dust Bowl Ballads” narra as dificuldades que as tempestades de poeira (conhecidas como Dust Bowl) impuseram aos americanos na década de 30. Somadas às dificuldades econômicas provocadas pela crise de 1929, as terríveis secas não apenas arruinaram a agricultura de estados como Texas, Kansas, Oklahoma, Arkansas e Colorado, como criaram migrações em massa do sudoeste à costa oeste, especialmente para o estado da Califórnia. E para piorar, as grandes dificuldades impostas pela grande depressão agravaram problemas como o desemprego, a exploração e o desprezo da população local pelos novos habitantes, frustrando os retirantes esperançosos por uma vida melhor no estado dourado.

Muitas das canções que aparecem no álbum foram escritas ao longo de toda a década, acompanhando o fenômeno climático que assolou o país, mas foi só em 1940, que Guthrie reuniu tudo e compôs novas músicas para seu primeiro álbum comercial com uma grande gravadora, a RCA (uma das mais antigas gravadoras americanas).

Conhecido pelas posições políticas divergentes (tanto que foi muitas vezes ligado ao partido comunista, no entanto não existem provas de que essa ligação existiu), Woody Guthrie produziu um registro denso e politizado de um importante período da história dos Estados Unidos.

Especialmente graças à viagem que fez com os migrantes (conhecidos como Okies) que iam do Oklahoma à Califórnia pela histórica Rota 66 durante esta época, conseguiu aprender canções blues/folk tradicionais e captar o sentimento daqueles que foram obrigados a encontrar um outro lugar para sobreviver.

Em faixas como “Dust Bowl Refugee” e “Ain’t Got No Home in This World Anymore” por exemplo, Guthrie não apenas narra as dificuldades da vida na estrada daqueles que enfrentaram o Dust Bowl, como traça o fenômeno do retirante pós-1929 em toda a América.

Este não é um álbum cíclico, e a ordem das canções não é tão bem amarrada, mas ainda sim é uma bela mistura de música e storytelling. Ouvimos isso em “Pretty Boy Floyd” e nos 7 minutos de ambas partes de “Tom Joad”, que é essencialmente a história de “As Vinhas de Ira”, de John Steinbeck, um clássico livro (que se tornaria filme nas mãos de John Ford em 1940) sobre os efeitos da crise econômica nos trabalhadores rurais do sudoeste americano e claramente uma inspiração para a composição de diversas canções de “Dust Bowl Ballads”.

O sotaque rural de Guthrie, a voz anasalada, muitas vezes áspera, as melodias repetitivas, a métrica nem sempre rítmica e os simples dedilhados denotam a ausência de uma preocupação estilística, mas que nem por isso tornam o registro menos impactante. Pelo contrário, marcam a fidelidade do artista com o que canta em suas músicas.

Suas crônicas do êxodo americano da década de 30 são sempre muito bem amparadas por descrições de ambiente, personagens e histórias, sem contar o humor sarcástico de faixas como “Do Re Mi”, “Dust Pneumonia Blues” e “Dusty Old Dust”.

Reverenciado por ícones como Bob Dylan, Pete Seeger e Bruce Springsteen, Woody Guthrie não foi apenas uma grande influência musical, pavimentando as estruturas da música folk e do country norte-americano. Foi também uma grande referência para artistas engajados e interessados em contar histórias através de suas canções.

“Vocal rude e anasalado, seu modo de tocar é como um pneu de ferro em um aro enferrujado, não há nada doce sobre Woody, e não há nada doce sobre as músicas que ele canta. Mas há algo mais importante para aqueles que as ouvem. Há a vontade das pessoas de resistir e lutar contra a opressão. Eu acho que chamamos isso de espírito americano”.

John Steinbeck

Grande parte da obra de Guthrie foi gravada em discos de 78rpm, tecnologia já obsoleta na segunda metade do século XX com a invenção do LP, de maior armazenamento. Muito por isso, sua discografia foi relançada por diversas gravadoras, tornando mais difícil traçar a cronologia correta de sua carreira e consequentemente, da história do álbum conceitual. No entanto, sem dúvida, foi o poeta de toda uma camada de desamparados.

Pioneiro ou não pela invenção do álbum conceitual, “Dust Bowl Ballads” é antes de mais nada um documento histórico e o legado artístico de um artista engajado e verdadeiro com as causas que defendeu em vida.

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