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Freak Out! – The Mothers of Invention

Líder do Mothers of Invention, Frank Zappa em seu álbum de estréia, satiriza as estruturas sociais, culturais e políticas norte-americanas dos anos 60 com seu humor corrosivo num álbum recheado de experimentalismo psicodélico.

 

Frank Zappa não é para todo mundo. Com mais de 60 álbuns lançados na carreira, o experimentalismo ligado às suas influências do jazz, da música concreta, da música de vanguarda e da atonalidade, além do humor característico sem dúvida fazem de Zappa um revolucionário, mas também uma figura excêntrica com uma obra essencialmente complexa de se entender. E “Freak Out!”, é o primeiro de Zappa e de sua banda, The Mothers of Invention, um dos álbuns de estréia mais ambiciosos já produzidos.

A apresentação ao vivo de “Trouble Every Day”, a décima segunda faixa desse disco, levou Tom Wilson, o produtor de vários registros de Bob Dylan (inclusive o clássico single “Like a Rolling Stone”) a pensar que o Mothers of Invention eram uma banda de blues formada por caras brancos, e então ofereceu um contrato ao grupo. Porém, o grupo formado pelos guitarristas Frank Zappa e Elliot Ingber, o vocalista Ray Collins, o baixista Roy Estrada e o baterista Jimmy Carl Black ia além, e sob a genialidade de Zappa, estavam dispostos a mostrar isso logo neste primeiro registro.

“Freak Out!”, lançado em junho de 1966, por pouco não alcançou a marca do primeiro álbum duplo da história do rock, que ficou com “Blonde on Blonde”, de Bob Dylan.

Sendo o primeiro ou o segundo registro duplo, a verdade é que o álbum colaborou ainda mais para a mudança de paradigma no mercado musical e influenciou Paul McCartney a criar o mais ambicioso dos álbuns até então, “Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band”. Ainda era pouco usual bandas lançarem álbuns longos, porque o mercado ainda era regido basicamente por singles.

Notavelmente conhecido por ser o primeiro álbum conceitual da história do rock, “Freak Out!” é uma crítica corrosiva e sarcástica da cultura norte-americana, assim como da música pop da época. Um conceito amplo e ainda pouco conectado entre as próprias faixas, e mais complicado de se entender visto o humor peculiar de Frank Zappa, mas ainda sim, inovador para a época.

Musicalmente, uma mistura de doo-wop, R&B e o experimentalismo do Avant-Garde. A excentricidade das influências musicais de Zappa, da música concreta ao jazz-fusion, passando pelo rock progressivo, a música clássica e a música atonal que se seguiriam até sua morte em 1993 é peculiar e em partes decisiva para tornar sua música, algo difícil de compreender e de se digerir. Neste registro, o experimentalismo não ofusca as melodias cativantes dos lados A e B do disco, que apresenta uma espécie de resgate de sons pop dos anos 50 e primeira metade dos 60, com letras bem humoradas e irônicas. A psicodelia, recheada de efeitos de estúdio e longas suítes, fica por conta dos dois últimos lados do álbum.

 “Pais e mães, vocês pensaram que os Beatles eram maus. Se armaram contra os Rolling Stones. Sonny & Cher fizeram vocês se encolherem. Bem, como o homem dizia, vocês não viram nada ainda. O Mothers of Invention estão aqui com um álbum chamado “Freak Out!”. Eles vêm de Hollywood. Suas roupas são horríveis – e eu gosto de roupas modernas. Seus cabelos e barbas são imundos. Eles cheiram mal. Você não pode acreditar – Então, pais e mães, próxima vez que os Beatles, os Stones ou Sonny & Cher vierem à cidade, os receba de braços abertos. Perto do Mothers of Invention, os outros grupos são como os Bobbsey Twins”.

Loraine Alterman, Detroit Free Pass

Os primeiros 35 minutos são uma espécie de paródias musicas das bandas da época com letras satíricas e bem humoradas muitas das vezes. “Hungry Freaks, Daddy” faz crítica feroz à sociedade de consumo; “I Ain’t Got No Heart” apresenta os pensamentos de Zappa sobre as relações amorosas e o matrimônio; “Who Are The Brain Police” destoa um pouco com seu clima sinistro (4 anos antes do Black Sabbath) e crítica política; “Go Cry On Somebody’s Shoulder” com harmonias de vozes cômicas tem uma letra debochada sobre canções de amor e da juventude da época; “Motherly Love” é uma ironia com o nome da banda e um tema vulgar; “How Could I Be Such a Fool” fala de desilusões amorosas; Wowie Zowie tem a letra mais cômica de todas, mas mantém a crítica à música da época; “You Didn’t Try To Call Me” e “Anyway the Wind Blows” continuam com a sátira de amores adolescentes; “I’m Not Satisfied” desenvolve uma temática mais séria sobre não se encaixar, mas mantém o tom da crítica, ao passo que “You’re Probably Wondering Why I’m Here” devolve o lado cômico com os vocais dementes e os riffs de kazoo.

“Trouble Every Day” trata de assuntos sérios (tensões raciais em Los Angeles e espetacularização da violência), mas não perde o lado provocativo.

O experimentalismo marcado pelos efeitos de estúdio começa com a suíte “Help, I’m a Rock/It Can’t Happen Here”, uma viagem sem sentido de quase nove minutos contra o conservadorismo e finaliza com os estranhos sons dos doze minutos de “The Return of the Son of Monster Magnet”, a faixa que introduz Suzy Creamcheese, a groupie fictícia da banda.

O clima se transforma nas duas suítes finais, de um pop escrachado para um experimentalismo abstrato, mas o lado cômico e satírico das letras e dos arranjos musicais de Zappa permanecem.

Leva tempo para apreciar e especialmente digerir “Freak Out!”, um registro experimental e sem pudor, mas ainda essencialmente melódico na maior parte do tempo. A obra de Frank Zappa se mostraria muito mais iconoclasta, e portanto muito mais complicada de se compreender. Sem dúvida é uma música que foge do padrão, que beira a esquisitice muitas vezes.

O alvo de “Freak Out!” não é apenas a música da época, com seus refrões grudentos e repetitivos. É o autoritarismo, o consumismo e o conservadorismo da sociedade norte-americana também. As vendas foram baixas (e o orçamento oferecido pela MGM para o próximo álbum foi reduzido), mas o primeiro do Mothers of Invention tinha ambições maiores do que o sucesso comercial, era criticar com um humor corrosivo as estruturas sociais, culturais e políticas dos Estados Unidos.

“Sgt. Pepper” pode ter levado a fama pelo primeiro álbum conceitual, e os Beach Boys requisitam o título com “Pet Sounds”, mas a evolução mostra que “Freak Out!” antecedeu muitas tendências, desde o uso de instrumentos até então nunca usados no rock (clarinetes, tubas, xilofones e kazoo) e efeitos de estúdio até o álbum conceitual.

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