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Pet Sounds – The Beach Boys

Mais do que as percepções confessionais do líder dos Beach Boys, Brian Wilson, “Pet Sounds”, além das ilusões e desilusões amorosas, tem seu foco nas inseguranças, experiências e desilusões transicionais da juventude para a vida adulta.

 

Até meados dos anos 60, o rock era tido como uma música para se dançar e nada além disso. Foram em parte os Beatles e em parte os Beach Boys que transformaram tudo na segunda metade da década. A partir de “Rubber Soul”, o sexto registro do quarteto de Liverpool, se percebeu que o rock podia sair das letras clichê e cobrir um terreno maior de assuntos. E principalmente, havia vida fora do rock que podia ser unida ao gênero. Tanto os ingleses, quanto os americanos foram pioneiros no amadurecimento poético e no experimentalismo que o rock progressivo e a psicodelia adotariam pouco tempo depois.

Não há como negar que os Beatles eram soberanos nessa época. E nenhum artista escapava da clássica comparação com a maior banda do mundo. A disputa nos rankings ia desde a já conhecida rivalidade Beatles – Stones, até duelos com The Kinks, The Who e até com o já estabelecido Elvis Presley. Todos, na tentativa de desbancar o fenômeno da beattlemania.

Se na popularidade e nas vendas, Stones e Beatles foram rivais diretos, ao menos na estética musical, os verdadeiros rivais foram os Beach Boys.

É fato que os americanos não chegavam perto da popularidade dos ingleses, que abocanharam o mercado norte-americano ao capitanear a invasão britânica, mas foi na busca pelo pop perfeito, que as duas bandas se aproximaram e rivalizaram a cada álbum produzido. E a disputa não apenas trouxe inovações musicais sem precedentes nas técnicas de gravação, no experimentalismo e na cultura popular, como foi decisiva para a composição das obras-primas de cada um. “Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band” não existiria se não fosse “Pet Sounds”, e este último não viveria sem “Rubber Soul”, do quarteto de Liverpool.

“Rubber Soul” era a maturidade lírica e o ponto máximo de experimentalismo dos Beatles até então. As harmonias emprestadas dos Beach Boys, o flerte com o Folk e o Soul e as influências indianas de George Harrison não foram os principais elementos que impressionaram Brian Wilson a compor “Pet Sounds”. O que Rubber tinha que mais chamou a atenção de Wilson era sua unidade. Embora diverso, cheio de influências musicais distintas, não havia “fillers”, todo material era digno de nota.

“Eu não estava bem preparado para a unidade. Parecia que tudo se conectava. ‘Rubber Soul’ era uma coletânea de músicas que de alguma forma, se conectava como nenhum álbum antes havia feito”

Brian Wilson

Isso numa época em que o álbum não era um formato valorizado e os artistas tentavam ao máximo encher o lado A dos LPs de singles e relegar ao lado B, canções experimentais e sem expectativa comercial. Os Beatles começaram a revolução e os Beach Boys aprimoraram a ideia com “Pet Sounds”, um álbum que buscara utilizar todo o espaço do LP de forma inteligente, com um conceito.

Para Wilson, o conceito não estava nas letras, mas sim no processo de gravação, que utilizava o estúdio como um instrumento para composição das canções (influência direta de Phil Spector), como o uso de eco, delay, reverb e outros efeitos de estúdio. A ideia era combinar instrumentos para obter sonoridades distintas, criando ricas texturas sinfônicas. Além dos tradicionais instrumentos (guitarra, baixo, bateria e piano), trompetes, saxofones, violinos, violoncelos, flautas, um cravo e até apitos para cães, sinos de bicicleta e latas de Coca-Cola ampliaram totalmente o horizonte musical do grupo.

A verdade é que não há uma história específica, com início, meio e fim, como grandes artistas do Rock Progressivo da década seguinte iriam insistir com suas próprias obras (com muito esforço, é possível encontrar alguma linearidade em “Pet Sounds”). Há sim, uma mesma temática ao redor das letras, que se cercam da insegurança, das desilusões e da experiência de se tornar um adulto (há de se lembrar que os irmãos Wilson, Al Jardine e Mike Love não passavam dos 25 anos na época) à exceção de “Sloop John B”, um single colocado forçosamente pela Capitol Records para tornar o álbum mais rentável.

Durante uma turnê dos Beach Boys, o baixista e líder da banda (que havia se aposentado das turnês do grupo para se dedicar à composição e a produção em estúdio) chamou o até então desconhecido Tony Asher para colocar em palavras suas emoções mais complexas e mudar totalmente a fórmula de sucesso dos 10 álbuns anteriores. A mudança na estética sonora dos Beach Boys foi tão profunda que “Pet Sounds” foi recebido com estranheza até pelos próprios integrantes da banda (que só precisariam gravar os vocais, pois o material já estava pronto), recém-chegados do Japão, que não concordavam com o novo direcionamento e não conseguiam imaginar como emular toda a complexidade musical dos arranjos idealizados por Wilson. Para se ter uma noção, Mike Love, o principal letrista até então, relutante em concordar com o abandono dos antigos temas (surfe, carros rápidos e garotas) chamou o projeto de “Brian’s ego music”.

O objetivo era “compor o melhor álbum já feito”, segundo próprias palavras de Wilson. E para muitos críticos, sim, “Pet Sounds” é o melhor álbum da história.

Composto de 13 canções bem construídas e relevantes, o disco é um retrato do estado emocional de Wilson em 1966 – viciado em drogas como a maconha e o LSD (pois se acreditava que a droga aumentava a capacidade criativa) e neurótico com a competição pelo melhor álbum com os Beatles.

As angústias de um casal ansiando pelo outro em “Wouldn’t It Be Nice” já dão o tom da mudança, embora a imagem de um casal apaixonado soe sutil em comparação ao que viria a seguir, tanto que esta foi a canção de maior sucesso dentre todas dentro do disco. É a melancolia das desilusões e expectativas amorosas de “Don’t Talk (Put Your Head on My Shoulder)”, “Caroline, No” e “I’m Waiting For The Day” que marcam presença num álbum essencialmente introspectivo. Porém não são as únicas que se destacam. “God Only Knows” quebrava os padrões e era a primeira canção popular a ter Deus em seu título e as experiências lisérgicas de “I Know There’s An Answer”e as inseguranças de “I Just Wasn’t Made for These Times” montavam um álbum completo, sem nenhuma faixa desprezível.

Enquanto grandes nomes da cena musical da década 60 se abriam e colocavam suas opiniões sobre um mundo em transformação, Brian Wilson resolveu voltar-se para as próprias angústias e desolações pessoais. Era algo quase que confessional. Mas o timing foi perfeito. Não era mais o mundo feliz da paixão platônica, dos carros esportivos e das festas na praia. A guerra se aproximava e milhares de jovens buscavam expor suas opiniões políticas e de fato, transformar o mundo em que viviam.

Nota-se que os esforços de Brian Wilson em fazer um álbum complexo e maduro funcionaram. Há uma grande combinação de instrumentos, recursos de estúdio e som orquestrado, porém as harmonias vocais que marcam a identidade do grupo continuam lá, mas agora ainda mais complexas, melódicas e cheias de camadas. Um pop comercial, mas tão rico e sofisticado que influenciou e pavimentou o terreno para o Rock Progressivo.

Se McCartney tinha Lennon (sem se esquecer de George Harrison, outro brilhante compositor) na trilogia “Rubber Soul – Revolver – Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band”, Brian Wilson era um compositor solitário e trabalhava na maior parte das vezes, com colaboradores externos. A verdade é que nenhum integrante dos Beach Boys chegava perto do talento de Wilson, a cabeça e o coração por trás de “Pet Sounds”. Seus esforços solitários apenas corroboram para tornar a obra-prima da banda em algo ainda mais louvável, reverenciada de pé por ninguém menos que Paul McCartney.

A transição radical do estilo descompromissado dos Beach Boys para uma maturidade repentina se mostrou um fracasso comercial, apesar de seu poder de influência que ao lado dos Beatles foram fundamentais para o surgimento do rock progressivo e da criação de álbuns conceituais e óperas rock nos anos posteriores. Não é de se espantar que “Pet Sounds” tenha obtido mais sucesso fora dos Estados Unidos, no Reino Unido, onde estava a efervescência da psicodelia e de um rock engajado, em plena transformação. Eram os primórdios do Art Rock, o movimento que visava dar uma maior credibilidade artística para o gênero, ao trazer influências diferentes do rock de Chuck Berry e Bo Diddley.

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