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Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band – The Beatles

 O conceito de uma banda fictícia com os alter-egos dos integrantes dos Beatles foi abortado no meio do caminho, mas o que fica é uma coleção de músicas que simboliza o início de uma era.

Antes de mais nada, é preciso desmistificar o conceito de “Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band”. Não há um conceito claro no oitavo álbum dos Beatles, porém há uma razão para ele estar numa página que justamente discute o álbum conceitual. Foi ele o principal responsável por moldar uma era recheada de obra conceituais e por dizer à todos ao colocar as letras das canções no encarte de forma inédita na história, que aquilo era poesia, era arte, e assim devia ser interpretado. O Rock definitivamente não era mais música para apenas dançar.

Era uma nova experiência sonora e visual. Lançado sem um single sequer, os Beatles já avisavam que era preciso ouvir o álbum inteiro, que não haviam mais ‘fillers’, aquelas faixas tapa-buraco que entravam no pacote apenas para preencher espaço. A própria arte da capa, com mais de 60 personalidades e itens que moldaram e influenciaram a cultura dos anos 60 demonstrava o grau de atenção exigido com a obra.

E foi o maior esforço criativo dos Beach Boys (“Pet Sounds” de 1966, que fora inspirado em “Rubber Soul”) que forçou McCartney, Lennon, Harrison e Starr a escreverem algo ainda mais complexo e inovador, por mais que o clima fosse um pouco pesado e claramente cada peça criativa da banda estivesse com a cabeça em outro lugar. George Harrison com suas cítaras e incursões no hinduísmo e na música indiana e John Lennon atordoado pelo uso de LSD. Coube a Paul McCartney liderar o barco.

Aqueles que assistiram aos Beatles em 1966 não sabiam aquela que seria a última oportunidade de conferir a banda ao vivo. Os shows eram lotados e a histeria da massa provocava um barulho ensurdecedor em que nem público ouvia o grupo e nem o grupo conseguia se ouvir. A decisão de se aposentar e se dedicar ao trabalho em estúdio (a exemplo de Brian Wilson, líder dos Beach Boys) deu a tranquilidade e o tempo necessário para produzir a revolução sonora e comportamental que marcaria o fim da década. Sem a pressão dos shows, o grupo poderia experimentar sem a preocupação de reproduzir a complexidade de efeitos e instrumentos de cada gravação.

E os álbuns anteriores, “Rubber Soul” e “Revolver” já rompiam com o tradicional estilo do grupo. As claras influências da música indiana em George Harrison já apareciam em “Norwegian Wood (This Bird Has Flown)” e “Love You To”, a aparição de novas sonoridades com o uso de trompas, cravos e quartetos de cortas davam um toque erudito e finalmente a psicodélica “Tomorrow Never Knows”, a última de “Revolver”, marcava claramente as diversas influências à que os Beatles estavam sendo expostos na época. Prontos para receber influências diversas e construir uma nova era na própria carreira também discursavam sobre uma gama maior de assuntos. As tradicionais canções de amor ganhavam uma camada muito mais grossa de complexidade emocional.

Dez meses se passaram entre o lançamento de “Revolver” e “Sgt. Pepper’s”. Um longo tempo numa década onde fãs estavam acostumados a receber álbuns dos seus artistas favoritos a cada três meses. A ansiedade por um novo registro do quarteto de Liverpool não foi amenizada com o lançamento do single “Strawberry Fields Forever/Penny Lane”, que a princípio estaria em “Sgt. Pepper’s”, enfim lançado em junho de 1967 após mais de 700 horas de gravação no Abbey Road Studios, que na época dava a luz ao debut do Pink Floyd e gestava a ópera rock do Pretty Things, “S.F. Sorrow”.

Sob os trajes e as personas de uma banda fictícia, os Fab Four iniciam as duas primeiras canções, a teatral faixa-título e “With a Little Help from My Friends” (que foi acusada de incentivar o uso de drogas e imortalizada na voz de Joe Cocker em 1970), cantada por Ringo, sob o alter-ego de Billy Shears. No entanto, o conceito foi por água abaixo depois que as contribuições dadas ao álbum nada tinham a ver com a banda do sargento pimenta.

Não há um conceito em “Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band”, embora o tema da solidão seja recorrente. Tanto sua estrutura de canções interligadas quanto o seu conceito visual (letras no encarte e arte de capa recheada de elementos somados à imagem da banda, algo não usual para época) levou à esta ideia errada. Mas nada que reduza a sua importância como um dos álbuns que colocariam os singles em segundo plano por mais de uma década. Por exemplo, muitas faixas começavam na faixa anterior, justamente para tornar tudo, uma peça só. E isso foi um grande problema para as rádios, que acostumadas a tocar singles de no máximo 3 minutos, não conseguiam cortar as canções para serem tocadas na AM. O próprio formato da programação de rádio estava prestes a mudar para abrigar as canções longas e conceituais da era psicodélica e do rock progressivo nos anos 70.

“”Sgt. Pepper” é chamado de o primeiro álbum conceitual, mas ele não vai à lugar nenhum. Todas minhas contribuições para o álbum não tem nada a ver com a ideia de Sgt. Pepper e sua banda; mas funciona porque nós dissemos que funciona, e foi assim que o álbum apareceu. Porém não foi concebido como um conjunto, exceto por Sgt. Pepper introduzindo Billy Shears e a reprise. Qualquer outra música poderia estar em qualquer outro álbum”.

John Lennon

Se os álbuns anteriores já eram diversificados, com seu oitavo álbum de estúdio, os Beatles levam o experimentalismo ao seu ápice. Música indiana em “Within You, Without You”, o circense Music Hall em “Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band”, “Being for the Benefit of Mr. Kite” e “When I’m Sixty-Four” e pura psicodelia na lisérgica “Lucy in the Sky with Diamonds” e na bela “A Day in the Life” são exemplos do DNA musical da fase mais amadurecida dos Fab Four. Tudo com o toque mágico do quinto beatle, o produtor George Martin, grande responsável por tornar o produtor musical, uma figura tão importante quanto a banda em si.

Amadurecidos tanto musicalmente quanto poeticamente, o grupo se afastava definitivamente do R&B e da ingenuidade das letras que derretiam os corações das fãs.

É importante salientar e desmitificar a aura de “Sgt. Pepper’s” como o álbum que sozinho mudou o jogo. Sua importância é inegável, especialmente na forma como se ouvia música na época e como o álbum era tratado como “segundo mercado” pelas gravadoras e lojas de discos, porém o início do movimento psicodélico, atribuído erroneamente apenas aos Beatles com este álbum, já tomava forma com a obra máxima dos Beach Boys, o experimentalismo do Pink Floyd, a selvageria R&B aliada ao psicodelismo do Pretty Things, o pioneirismo do Cream de Eric Clapton e a guitarra distorcida de Jimi Hendrix.

Primeiro álbum de rock a ganhar um Grammy, “Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band” fez muito mais do que ganhar prêmios e mais prêmios. O revide à altura da obra de Brian Wilson (que encerrou a rivalidade entre as bandas, já que o baixista sofreu um colapso devido ao abuso de drogas) abriu as portas para a criação de dezenas de discos conceituais, ao colocar o rock em um novo patamar, o da arte.

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