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Tommy – The Who

No quarto álbum de estúdio, o The Who finalmente desenvolve sua ópera rock. Após presenciar um assassinato cometido pelos pais, o jovem Tommy se torna cego, mudo e surdo. Entre abusos e diversas tentativas de cura, Tommy é cultuado e pouco depois renegado como um grande líder espiritual. 

 

A invasão britânica corria em pleno curso no ano de 1969, liderada pelos dois maiores grupos de rock ingleses, a dicotomia Beatles – Stones. O The Who, aos poucos aparecia como uma terceira força, e o sucesso do single “I Can See For Miles” na América era uma prova de que tão cedo chegariam ao posto de banda mais importante do mundo.

Ironicamente, no entanto, mesmo depois de escrever ao menos 4 dos maiores hits dos meados da década de 60, o The Who estava numa péssima situação financeira. O saldo pelas inúmeras horas de estúdio e pelas diversas guitarras e kits de baterias destruídos selvagemente era negativo. E os únicos dois singles lançados entre de “The Who Sells Out” e meados de 1969 não ajudaram a solucionar a questão. O fato era que o próximo registro dos ingleses teria que ser um enorme sucesso para quitar todas as dívidas.

Assim surge “Tommy”, o projeto mais ambicioso de Pete Townshend. Lançado em maio de 69, o The Who nos conta a história do menino “Tommy”.

O capitão do exército britânico, Mr. Walker, é recrutado para a primeira guerra mundial e é dado como desaparecido ao passo que sua esposa dá a luz à Tommy, seu filho. Dez anos se passam, e em 1921, Mr. Walker reaparece, encontrando sua esposa com um amante. Numa discussão, o capitão é morto pelo homem, enquanto seu filho assiste à toda cena. A fim de encobrir o ocorrido, o casal impõe que Tommy nunca comente sobre o caso em hipótese alguma. O menino desenvolve uma espécie de transtorno de estresse pós-traumático, se tornando surdo, mudo e cego. Seus responsáveis temem que Tommy nunca seja salvo pela religião e em meio à tentativas absurdas de cura (através do início da vida sexual e do LSD) e abuso tanto psicológico como sexual de familiares, o garoto desenvolve uma habilidade intuitiva no Pinball, se tornando um mestre no jogo. Ainda em mais uma tentativa de cura, um médico afirma que suas deficiências são emocionais, e não físicas. Enquanto Tommy encara o próprio reflexo, sua mãe, frustrada, destrói um espelho e liberta Tommy do estado catatônico. Considerado um messias, o jovem se torna um líder poderoso e funda um movimento religioso, porém seus adoradores o rejeitam após este aconselhar que seguissem seus passos e se tornassem surdos, mudos, cegos e jogassem Pinball.

Townshend critica acidamente a família, o fanatismo religioso e a idolatria, a dependência da religião, movimentos religiosos que prometem milagres absurdos, a vaidade da fama, o uso excessivo de drogas (influência do movimento psicodélico), à medida que glorifica o poder do auto-conhecimento e da transformação interior perante qualquer adversidade externa. Influências dos aprendizados adquiridos com Meher Baba, líder espiritual indiano.

A história ambiciosa e taxada muitas vezes de puramente pretensiosa não escondeu a habilidade do grupo de criar harmonias e melodias identificáveis, hinos pop de qualidade e instrumentais elaborados. “Tommy” de longe não é o melhor trabalho musical do The Who (Quadrophenia e Who’s Next são mais evoluídos), mas foi a obra que elevou o destruídor de guitarras, Pete Townshend ao patamar de artista engajado e sério para a crítica.

“Deixamos de ser uma bandinha pop de boate com fãs adolescentes para ser algo que fazia as pessoas dizerem ‘Cara, isso é demais'”.

Roger Daltrey

A ópera rock “Tommy” já era um projeto em que o guitarrista Pete Townshend estava trabalhando desde o começo de 1968. Na verdade, a ideia de escrever um álbum com uma história musicada sob a forma do Rock n’ Roll já era uma obsessão antiga de Townshend, que em 1966 e 1967 havia escrito as mini-óperas (como ele se referia às próprias faixas) “A Quick One, While He’s Away” e “Rael” respectivamente. No entanto, “Tommy” não fora a primeira ópera rock, embora tenha sido rotulada assim.

O Nirvana com seu pop psicodélico e o The Pretty Things, com a união de R&B e psicodelia já haviam criado obras, que embora Pete não admita, foram influentes para a criação da sua própria ópera. Claramente, o The Pretty Things trouxe uma ideia muito mais clara, com personagens mais complexos que o homônimo do grupo de Kurt Cobain fizera em 1967. O personagem principal, S.F. Sorrow, um arquétipo do homem do século XX, também uma vítima do sistema e das guerras criadas por ele, era muito mais desenvolvido e caracterizado que o hippie sonhador Simon Simopath do Nirvana.

Subprodutos da guerra, tanto Tommy quanto S.F. Sorrow são afetados por conflitos bélicos e são obrigados a superar os abalos emocionais consequentes disso. Enquanto a elucidação da mente é fundamental para o primeiro quebrar o transtorno que o deixou paralisado, o mesmo não se aplica ao segundo, que impelido pela força de um voodoo, perde a confiança em tudo e todos à sua volta.

E possivelmente seja esse o grande vão entre o sucesso de uma e o fracasso de outra ópera rock. Ao passo que “Tommy” cativa o ouvinte por sua história de superação, “S.F. Sorrow” é a história amarga e realista de uma geração.

“Acho que o The Who deve ter influenciado todo mundo na época. Com certeza, Keith Moon me influenciou na maneira de tocar. Ele era um ótimo baterista e foi muito subestimado”

Phil Collins

O espectro sonoro do The Who não sofreu uma reviravolta assim como aconteceu em “Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band” e os Beatles, porém “Tommy” marca uma gradual transição do Power Pop nos anos 60 para o vindouro Hard Rock/Rock de Arena que o The Who desenvolveria na década seguinte. A capacidade de composição de Pete Townshend se supera mais uma vez, assim como suas performances individuais (e do lendário baterista Keith Moon e do baixista John Entwistle também) são capazes de se destacar em meio ao trabalho em grupo da banda. O vocalista Roger Daltrey é o que mais evolui, finalmente assumindo o posto fixo de frontman do The Who com a ótima interpretação vocal em “Tommy” e a performance dramática no filme de 1975.

“Tommy” nasceu para o teatro com seus múltiplos personagens, vozes e seu arco narrativo muito mais complexo que “S.F. Sorrow”, a ópera rock do The Pretty Things e “The Story of Simon Simopath” do Nirvana, seus precedentes. Foi rotulada como a primeira ópera rock erroneamente, mas sem dúvidas, foi a primeira grande obra do gênero, ambiciosa, grandiloquente e complexa pavimentando o terreno para uma década recheada de óperas. O termo “ópera”, até então inédito (uma apropriação por Townshend) passou a ser utilizado por toda a década de 70 para designar álbuns conceituais com uma narrativa. Assim como na ópera tradicional, uma abertura (“Overture”) serve de introdução para a história do menino Tommy e canções inteiras são dedicadas a personagens específicos como o primo Kevin (“Cousin Kevin”), o tio Ernie (“Fiddle About”), a prostituta viciada em LSD (“The Acid Queen”) e a fã Sally Simpson (“Sally Simpson”). O leitmotif (frase musical recorrente associada à uma ideia, pessoa ou situação dentro do enredo), recurso associado às óperas de Richard Wagner, também aparece, representando a consciência de Tommy na recorrente frase melódica, “See Me, Feel Me, Touch Me, Heal Me”.

E assim, o quarto do álbum do The Who foi encenado por várias companhias de teatro diversas vezes nos anos posteriores ao seu lançamento e até hoje é um dos musicais de rock mais aclamados pela crítica e pelo público. Vale lembrar que “Tommy” também virou filme nas mãos do diretor Ken Russel em parceria com o The Who, com as participações especiais de Elton John, Tina Turner, Eric Clapton e Jack Nicholson. Houveram adaptações do roteiro original, mas o escopo se tornou fiel à significância do enredo.

Da mesma forma, sem orquestrações e experimentalismos psicodélicos (à exceção de “Unterture”, a longa suíte sobre a experiência lisérgica de Tommy) o The Who conseguiu reproduzir no palco tudo que criou em estúdio sem grandes prejuízos. Inovador, já que projetos ambiciosos como esse, dificilmente conseguiam ser reproduzidos ao vivo, como foi o caso dos Beatles e dos Pretty Things por exemplo.

Não há como negar a grande importância do The Who como o grande pioneiro do rock de arena dos anos 70, com suas produções cada vez mais elaboradas e a presença de palco que se tornaria um símbolo de atitude no rock n’ roll. Ainda que pudesse parecer (e ainda possa parecer) pretensioso demais, “Tommy” abriu um leque de possibilidades para o rock n’ roll.

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